Artur Carvalho de Amaral Gurgel
Relato
Publicado em 14/08/2022, por Artur Carvalho de Amaral Gurgel.
Para o meu pai João e meu filho João, a propósito do dia dos pais.
Chega uma hora que a gente vira o pai e depois vira o filho de novo, o filho do filho.
Meu pai escolhia nervoso feijão.
Batia as pontas dos dedos na mesa,
Tamborilava e tossia.
As mãos velhas, o medo da morte,
Falava pouco, em ritmo de solidão.
Hoje o rádio alto não me aplaca,
Bebi vinho doce em goles grossos,
Tampei a panela de pressão.
Agora apita e me agonia,
Escrevo trêmulo, perto do fogão.
O tempo despregado do cheiro da comida,
Cada vez mais João.
